O Novo Testamento nasceu em ambiente gentio-cristão e não em ambiente judaico-cristão. Ele só começou a ser composto a partir das viagens apostólicas de Paulo, levando o cristianismo para fora de Israel e, também, quando ficou esclarecido que o cristianismo não era mais uma facção do judaísmo (como eram os essênios, os zelotas, etc) e sim uma “outra coisa”. É claro que esta “outra coisa”, que não era chamada nem de religião, nem de doutrina, nasceu dentro da cultura judaica, isto é, não há cristianismo sem judaísmo. A “outra coisa” é, na verdade, uma nova interpretação que Jesus dá ao judaísmo tradicional farisaico-saudusaico, uma complexa visão acerca de temas centrais para os judeus como Deus, a Lei escrita e a Lei oral, além dos temas circunscritos ao judaísmo do século I, como o Reino de Deus e a ressurreição.
Fato interessante, no entanto, é que esta “nova coisa” frutificou amplamente nas comunidades judaicas da diáspora e, por isso, cinqüenta anos após a morte de Jesus apareceram os primeiros relatos escritos. O mais antigo de todos é o de Marcos, do qual há ainda duas fontes anteriores perdidas, chamadas de Pré-Marquino e de Quelle.
As primeiras comunidades cristãs chamavam a sua “doutrina/ religião” com uma expressão grega muitíssimo peculiar: euaggélion, εὐαγγέλιον, de onde provém a latinização evangelĭum e o aportuguesamento evangelho.
Ora, esta palavra grega, que aparece escrita 63 vezes no Novo Testamento, sendo que algumas colocadas na boca de Jesus, tem uma significação que as suas formas latina e portuguesa não são capazes de transmitir.
Eu-, εὖ, significa bom, bravo, nobre. Angel-, ἄγγελος, o que traz uma notícia, mensageiro, enviado, ou ainda, mensageiro de Deus, anjo, novidade. Ev-angelho em grego significa, portanto, a “boa notícia, a nobre mensagem, a boa novidade, a boa nova”. Estas duas palavras gregas aglutinaram-se em uma só para designar a “outra coisa” que nasceu com a nova visão de Jesus.
É interessante pensarmos que a latinização das duas palavras, assim como o aportuguesamento dela, não são capazes jamais de transmitir a alegria com que denominavam os próprios cristãos sua maneira de ver o mundo. Infelizmente ao traduzi-las perde-se quase todo o seu conteúdo. Quer leveza maior do que a própria religião chamar-se “alegre notícia”?
E, no entanto, evangelho só pode ser autêntico evangelho se ele, de fato, for esta “alegre notícia”. A dura palavra “evangelho”, habituada já aos nosso ouvidos, mas tão hermética quanto algumas palavras de origem grega como êustata ou angeololátrico, precisa ser amolecida pelos cristãos, isto é, precisa existir em seu conteúdo mais amplo, simples e entusiasta. Só sendo resgatado o seu sentido original na vida prática do cristão é que poderemos entender “evangelho” como o sinônimo de uma alegria e não como um sistema filosófico cujo objetivo é regenerar o ser humano, acepção descrita pelo dicionário Houaiss (1ª edição).
1 respostas para “εὐαγγέλιον”
Paola Bonow
1 outubro, 2010 às 09:09
A palavra “regenerar” já me dá arrepios ! Quanta arrogância imaginar que algo ou alguém seja capaz de “regenerar” outro alguém. Mas estamos infiltrados em normas, mergulhados em leis, regras e axiomas que servem para sustentar a nossa insegurança e desconhecimento de nós mesmos. Boas reflexões, André !