André Marinho
A dificuldade histórica dos cristãos (sejam eles de que segmento forem) com relação aos ateus é ainda muito enraizada, apesar de todos os esforços que caracterizaram os diálogos do século XX. Já hoje não há cabimento em se separar tudo o que pertença ao ateísmo de um lado (materialismo, marxismo, psicanálise, filosofias anti-metafísicas, etc) e religião de outro lado (dogmas, instituições, o sagrado, o metafísico, etc). Foi-se o tempo da sociedade franco-alemã do século XIX em que o ateísmo era praticamente a única solução para homens eruditos. Uma visita à Escola de Frankfurt demonstra o quão a religião é tratada com seriedade, sem os deboches sardônicos de Nietzsche. Horkheimer, Heidegger, Wittgenstein, E. Bloch são quatro exemplos de alternativas lógicas ao ateísmo com um sim a Deus.
Foi preciso, contudo, que a negação a Deus existisse para amadurecimento humano. Lutero foi o precursor dos caminhos críticos, rompendo com o monolítico bloco católico. Foi este padre alemão quem separou efetivamente igreja e “Estado” e foi o seu protesto que pode gerar, de fato, a multiplicidade de partidos (compreensões) tão fundamentais para a existência da futura democracia iluminista. As perseguições à Reforma foram, por sua vez, essenciais para os intelectuais cada vez mais terem a certeza do quão a Igreja Romana estava em oposição à modernidade que nascia com um Descartes e um Hamlet. O novo tempo da razão científica e filosófica, a razão proclamada por F. Bacon, metologicamente tratada por Galileu e Pascal, Spinoza e Leibnitz, Newton e Boyle. Com Giordano Bruno, Tommaso Campanella e Galileu a Igreja recebeu golpes fatais. Agora o mundo entraria no iluminismo! A nação era a grande causa. Com a revolução francesa os direitos humanos substituíram o credo, a bandeira tricolor a cruz, os mártires os heróis e a Marseillese o Te Deum! Com a revolução industrial estava claro: o progresso é uma vitória do Homem! O Século XIX, diante desta marcha voluptuosa do ser humano integrante das sociedades individualistas-modernas, explodiu na filosofia oferecendo desafios dificílimos à teologia. Como lidar com o pensamento de Feuerbach, Marx, Nietzsche e Freud? Uma coisa esses quatro gênios não eram: inocentes e suas “filosofias” eram tão bem estruturadas que não apareceu um sequer teólogo no século XIX que fosse capaz de refutá-las, de igual para igual.
O ateísmo ganhou, então, espaço nas sociedades européias. Obviamente estamos citando o centro da era das revoluções, a Inglaterra e a França, mas também a romântica Alemanha produziu, para a surpresa das vaidades intelectuais francesas, estes quatro grandes pensadores. Foi, contudo, em solo parisiense, ou em algum medida com influência da cultura elitista parisiense, que eles conseguiram “pensar”.
Marx, de modo incomparável, influenciará toda a vida acadêmica até os estertores século XX (se pensarmos que Walter Benjamin era marxiano e que Hobsbwam, o maior historiador de nossa época também o é). Marx revolucionou tudo, a maneira de entender a história, desvendou os sentidos da economia capitalista e fez uma importante crítica à religião, como se esta fosse uma das mais requintadas formas de alienação das causas concretas as quais os homens devem se empenhar. Se Marx foi um teórico inigualável, seu pensamento não ficou restrito a livros. O que é a história política do mundo ocidental (e isto inclui não só governos, mas o operariado) depois dos anos de 1860? É a história de uma tomada de posição, pró-Marx ou contra-Marx. É verdade que as populações do interior da Lituânia ou das províncias argentinas fronteiriças ao Chile não liam O Capital. Mas de qualquer modo a agitação na política era fundamental na vida de todas estas pessoas, seja tomando suas enxadas e protestando, seja na repercussão ocorrida com o Manifesto Comunista. E tudo o que provinha de Marx tinha raiz ateísta.
Já com Nietzsche o processo foi o mesmo, embora circunscrito à intelectualidade que enfrentava em excelente alemão os escritos deste filósofo-literato. Nunca se viu com tanta violência uma crítica à cultura quanto a de Nietzsche. A antirreligiosidade do filósofo é agressiva, mas antes de o ser em termos pessoais (ele era um pacato cidadão) o era como manifestação das realidade “moderna”, isto é, Nietzsche como ninguém entendeu as consequências no mundo geradas pelo ateísmo e por isso ele era tão ferrenhamente contrário a ateus superficiais. O niilismo que ele critica com fúria, isto é, a sociedade metafísica em que estamos estruturados desde Platão fracassaram. O homem não pode provar que ele é mais perfeito do que uma minhoca, uma vez que ambos biologicamente realizam à perfeição suas funções. No que tange à religião, sua crítica audaciosa em O Anticristo, seu último livro, atira para todos os lados, seja para teólogos, padres, igrejas. Ele denomina a história sagrada cristã como a história maldita! Qual grande teólogo do século XIX saberia ler um Nietzsche e dialogar com os seus conceitos? Nenhum!
Citando ainda mais um deles, Freud, que viu em Deus uma ilusão infantil, isto é, uma necessidade do ser humano frágil, no qual o reino dos desejos latentes, do inconsciente, tem mais vigor que o reino do estado consciencial. O homem, portanto, não é senhor pleno de si e muito mais lhe escapa de si mesmo do que ele mesmo é capaz de prever. Qual outro médico influenciou tanto o pensamento das pessoas? A visão sobre o ser humano mudou radicalmente!
Tudo este giro de perspectivas ocorreu graças a quatro grandes ateus do século XIX! Hoje já temos distanciamento à crítica que eles realizaram. Já podemos olhá-los com outros olhos e entendê-los de modo menos misturado. Sim, foi graças a Marx que se póde hoje identificar o quão muitas vezes a religião é de fato o ópio do povo, ou seja, é uma forma de alienação da realidade. Foi graças a Freud que se póde observar a complexidade das estruturas psíquicas humanas e nosso funcionamento (desde um miserável mendigo a um importante cardeal). Foi graças a Nietzsche que se póde olhar para o tão cultuado “progresso” e saber criticá-lo, além de com clareza ímpar compreendermos as estruturas metafísicas que reinaram e reinam na formação do ser humano. Foi graças a eles que podemos, inclusive, hoje, pensar a religião de maneira muito mais séria, crítica, embasada. Sem Marx não haveria uma visão tão profunda das estruturas sociais injustas e do quão o cristianismo coloca-se em oposição a qualquer tipo de opressão. Sem Freud jamais entenderíamos com profundidade o “não julgueis” de Jesus. Sem Nietzsche jamais entenderíamos o quão muitas vezes a religião quer desvalorizar o aqui, para supervalorizar o além. Que seria da religião sem os ateus?
Hoje o debate com relação a estes ateus por parte de religiosos é muito frutífero. Já há importantes teóricos marxistas que revisam em muito as críticas de Marx à religião e inclusive as refuta (na linha de E. Bernstein, A. Schaff, M. Machoveĉ), assim como desde logo levantaram-se pensadores ligados à psicanálise (Jung, Fromm, Frankl) que sem ignorar Freud criticaram a visão de Freud sobre religião. Até mesmo a antirreligiosidade de Nietzsche foi muito bem pensada e refutada em alguns aspectos por eminentes filósofos como Karl Jaspers.
Hans Küng, um dos maiores teólogos do século XX, em sua obra ¿Vida Eterna? (pp. 67-68, Trotta, 2000) refuta os grandes ateus, baseado em uma lista de incontáveis teses de mestrado e doutorado que se avolumam a cada dia, e que lhe proporcionaram tais argumentações:
“Do profundo desejo humano de vida eterna não se pressupõe – e aqui erram alguns teólogos – a realidade da vida eterna. Mas, desse desejo – e aqui erram alguns ateus – não se segue a não realidade da vida eterna. Claro que o desejo não implica no cumprimento. Pode ser que aos mais antigos, intensos e urgentes desejos da humanidade não haja respostas e que a humanidade, efetivamente, tenha criado ilusões durante séculos. Mas não podia ser também ao contrário?
Façamos um balanço provisório:
- A interpretação psicológico-filosófica da fé na vida eterna de Feuerbach, sobre a qual também se baseiam a interpretação sócio-crítica de Marx e a interpretação psicanalítica de Freud, não decide nada sobre a realidade ou não realidade da vida eterna.
- Especialmente a teoria da projeção de Feuerbach, fundamento da teoria do ópio de Marx e a teoria da ilusão de Freud, são incapazes de demonstrar que a vida eterna é unicamente projeção do homem (ou consolo interessado, ilusão infantil); todas as frases de “unicamente” ou “não é mais que” resultam necessariamente suspeitas.
- A negação ateísta da vida eterna, por sua parte, não está a salvo de toda suspeita de projeção. Frequentemente ela mesma vive de uma “atitude de fé” (fé, por exemplo, na natureza huamna, na sociedade socialista, na ciência racional). Justamente por isso deve-se perguntar se por sua parte não é, ela mesma, um projeção do homem.
- Mas o fato de que toda negação ateísta da vida eterna resulte ultimamente infundada não supõe em absoluto que a fé na vida eterna esteja fundamentada. É possível fundamentar esta fé? Ambas posições parecem tão bem quanto tão mal fundamentas e se neutralizam reciprocamente. Parece que nos encontramos num tabuleiro de xadrez. É possível sair desta situação?”
O grande resumo que Küng faz do ateísmo e de suas refutações são importantes porque querem propor que a questão do ateísmo e da religião são de ordem individual e particular. Foi-se o tempo em que os lados acreditavam que conseguiriam provar que Deus existe ou não-existe. O desejo pelo monopólio da cultura não cabe mais nas linhas de pensamento do século XXI.
Justamente por isso a religião precisa cada vez mais saber lidar com as embasadas críticas dos ateus e até absorvê-las em muitos dos seus aspectos quando for possível e necessário. Não se pode ignorar um pensador como Marx, Freud e Nietzsche, caso o estudioso seja sério. O mesmo, contudo, serve para a “ciência” e a “filosofia”. Muitos destes saberes poderiam se enriquecer caso eles soubessem dialogar com a religião e as perspectivas que realidades como espiritualidade e metafísica geram na existência humana, de modo positivo.
Neste panorama é incabível o discurso do Papa Bento XVI em Londres no dia 16 de setembro de 2010, para a Rainha Elizabete. Ele afirmou: “”Até mesmo durante as nossas vidas, nós conseguimos lembrar como o Reino Unido e seus líderes se levantaram contra a tirania nazista que queria erradicar Deus da sociedade e negava nossa humanidade comum a muitos, especialmente os judeus, que se julgava indignos de viverem”, disse Bento 16. “Quando formos refletir sobre as lições sombrias do extremismo ateísta do século 20, nunca nos deixemos esquecer de como a exclusão de Deus, religião e virtude da vida pública leva em última instância a uma visão truncada do homem e da sociedade, e portanto uma visão reducionista das pessoas e seus destinos.”
Neste discurso o Papa faz uma confusão entre “nazismo” e “erradicar Deus da sociedade”, como se fossem a mesma coisa. Claro que Marx e Freud acreditavam na erradicação de Deus da sociedade. Jamais, contudo, eles aceitariam erradicar culturas, pessoas, como o fez o nazismo, com o próprio aparelho estatal. Nazismo não é sinônimo de ateísmo. De modo algum. Isto é uma ofensa aos ateus humanos, ateus éticos, ateus que querem a libertação do ser humano de uma série de opressões. O nazismo não foi um “ateísmo extremista do século XX”. Sartre foi um ateu radical e nunca teve nenhuma postura semelhante aos conceitos nazistas! Portanto, os cristãos precisam esquecer a política das caças-às-bruxas e saberem diferenciar o joio do trigo.
Já hoje, na nossa sociedade pós-moderna, não pode haver espaço para extremismos como os do atual papa, que, seguramente, esqueceu-se da passagem evangélica em que Jesus admira-se da fé de um romano ou na que Jesus acolhe bem os gregos, ambos considerados pelos judeus do século I como os “ateus da época”.